Equipa Profissional
O Académico de Viseu está de volta ao lugar onde pertence

Trinta e sete anos depois, Viseu voltou a respirar Primeira Liga.
Na manhã deste sábado com Fontelo e Rossio cheios de academistas, jogou-se o último jogo da temporada, frente ao Sporting CP “B”. Não houve explosão de golos, mas houve algo maior: resistência, crença e um estádio inteiro suspenso até ao último apito. Aos 90+6’, o árbitro levou o apito à boca e libertou uma cidade inteira de décadas de espera. A capital de distrito estava, finalmente, de regresso ao lugar onde tantas gerações sempre acreditaram que pertencia.
A partida começou com o peso da história nos ombros dos homens de Sérgio Fonseca. O emblema preto e branco entrou melhor, mais afirmativo, mais corajoso com bola, procurou assumir o controlo perante um Sporting B leve e sem pressão classificativa. Logo no primeiro minuto, Álvaro Zamora deu o aviso ao aproveitar um espaço à entrada da área para tentar o remate, travado por João Muniz.
Os viseenses queriam resolver cedo, mas o futebol testa aqueles que sonham mais alto. Aos seis minutos, o adversário Kauã Oliveira, silenciou momentaneamente o Fontelo ao disparar à barra da baliza de Domen Gril. Foi o primeiro susto que se transformou num teste cardíaco para adeptos e jogadores.
Empurrado pelas bancadas, o conjunto da Beira Alta respondeu. Zamora, sempre inconformado, voltou a ameaçar de longe. André Clóvis começou a ganhar duelos físicos e a incendiar a frente de ataque. João Guilherme desequilibrava na direita e Kahraman agitava o jogo entre linhas. A equipa de Sérgio Fonseca tinha posse, tinha iniciativa e procurava abrir o marcador.
Aos 18 minutos, Clóvis esteve perto de desbloquear a história. Recebeu na área, rodou sobre o adversário e obrigou Callai a uma grande defesa, ainda que o lance tenha sido invalidado por falta. O grupo viseense crescia e a equipa leonina encolhia perante a intensidade viseense.
Mas à medida que o relógio avançava, o nervosismo começava também a entrar em campo. O Sporting B ganhou confiança, subiu linhas e começou a aproximar-se da baliza de Gril. Mauro Couto e Paulo Cardoso apareciam mais no jogo e os leões passaram a dividir a posse. Do outro lado, as notícias vindas de Torres Vedras aumentavam ainda mais a tensão.
A segunda parte trouxe um Académico mais agressivo. Logo aos 49 minutos, Kahraman obrigou Callai a uma enorme defesa na sequência de um livre direto. Pouco depois, Anthony Correia cabeceou após canto, novamente para intervenção do guarda-redes leonino.
O momento que poderia ter mudado tudo surgiu aos 57 minutos. André Clóvis recebeu fora da área, levantou a cabeça e disparou um remate absolutamente magistral. A bola beijou o ângulo da baliza do Sporting B e fez tremer a barra. Durante um segundo, o Fontelo levantou-se em celebração. Durante outro, caiu num silêncio desesperado.
As paragens sucediam-se, os jogadores caíam no relvado, as pernas pesavam e as bancadas viviam entre o medo e a esperança. Aos 86 minutos, já ninguém estava sentado no Fontelo. O Académico defendia com alma, enquanto o Sporting B tentava estragar a festa. Gustavo Costa ainda tentou aliviar a tensão com um remate de muito longe, mas a bola saiu por cima.
E então chegou o momento.
O Fontelo explodiu.
Jogadores caídos no relvado, lágrimas nas bancadas, abraços intermináveis e um grito preso durante 37 anos finalmente libertado: o Académico de Viseu está de volta à Primeira Liga.
Não foi apenas uma subida. Foi o culminar de décadas de espera, sofrimento e resistência. Foi a quarta subida de divisão da história academista. Foi o dia em que uma cidade voltou a sentir-se gigante no mapa do futebol português.
E no centro de tudo estava Sérgio Fonseca. Um homem da casa, acarinhado pelos viseenses, que já tinha vivido uma subida enquanto jogador da formação viseense e que agora, como treinador, conduziu o Académico a um dos capítulos mais marcantes da sua história.
O futebol tem destas histórias. Algumas escrevem-se com golos. Outras escrevem-se com alma.
E esta ficará para sempre gravada na memória de Viseu.
